Monalisa de Batom
29/03/2018
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Da arte do desapego

Se existe uma coisa que você tem (ou vai fazer) caso você mude de país – seja pra morar definitivamente em outro lugar ou como é o meu caso passar uma temporada  – é trabalhar a arte do desapego, em vários sentidos.

No começo é um mix de sentimentos, é a empolgação da experiência e obviamente o medo do novo, misturados é claro com o pensamento certo de que algumas coisas você terá que abrir mão pra essa nova vida.

Não estou dizendo que é ruim viu gente, apenas que não é facil e que sim, acontece!

Embora eu estivesse meio que numa fase de transição do meu trabalho no Brasil e ansiava muito por mudar a forma com que trabalhava, abrir um pouco mais a minha mente, aprender coisas novas e adquirir outras experiências, foi um tanto quanto difícil aceitar que nada (nunca mais) seria como era.

Ok, nessa hora vocês devem estar pensando “Mas Mi, olha que incrível o que você está vivendo. Não reclama!!!”, e já acrescento: não é (nem de longe) uma reclamação. É apenas uma constatação – heheeh – você vai sim trabalhar o desapego.

No começo – sendo bem sincera – era mais uma questão PLÁSTICA sabe gente, do tipo não ter as facilidades de morar num lugar onde todo mundo te conhece e sabe do seu trabalho, não conhecer basicamente quase ninguém nessa nova cidade, não poder levar tudo o que eu tinha em casa, ter meu próprio carro, onde encontrar um bom dentista, uma boa manicure (afinal eu fazia a unha toda semana), uma ótima cabeleireira (sou meio chatinha com a questão cabelo), não ter massagem toda sexta-feira e por aí vai…  (sim, você inevitavelmente pensa em coisas assim).

Uma vez que você se dá conta que pra tudo se existe um começo, nessa questão você relaxa. Afinal, trabalha com novas possibilidades. E ah vai, não deve ser assim tão difícil achar um bom profissional não é mesmo? Nesse sentido você para de criar caso.

Decidimos essa “temporada fora” quase um ano antes de viajar, e ficamos basicamente 9 meses trabalhando pra que chegássemos aqui com tudo certo, ou quase tudo.

Durante essa gestação (hihihi) desapeguei de tudo o que comentei lá encima, além é claro da minha casa, do meu cantinho no trabalho, da forma que trabalhava no Brasil, mas em nenhum segundo quis me dar conta (e hoje noto que foi intencional) que o mais difícil seria desapegar daquilo que não era nada plástico: das pessoas.

Da arte do desapego

Minhas pessoas ♥

Pra vocês terem uma ideia foi apenas nas duas ultimas semanas que percebi o quanto estava sofrendo por ficar longe da minha família e amigos. Acho que não queria ficar pensando nisso sabe gente, mas acabei me dando conta numa crise ferrenha de pânico com direito a uma infestação de espinhas. Nossa, nem gosto de lembrar, foi bem tenso. Mas graças, tudo passou. E eu fortemente trabalhei com a ideia de que estar morando fora era também uma oportunidade pra essas pessoas virem me visitar.

Já estou na Alemanha há 6 meses, e apesar de estar preparando um post super bacana pra vocês sobre o que aprendi com esse tempo morando fora, quero acrescentar aqui neste texto, sobre qual é a verdadeira arte do desapego falando deste lado:

1 – Você desapega de carros, aprende a viver sem eles e a entender que suas pernas aguentam andar 3/4 km por dia (ou até mais) sem problema nenhum. Você anda de ônibus e trem e para de achar que se não tem carro, tem uber (ou taxi).

2 – Você não prioriza a questão estética de forma tão ferrenha, aprende que dá sim pra sair de casa sem maquiagem, que suas unhas não vão cair se você não fazê-las toda semana, que seu cabelo pode ser muito bem cuidado por você mesma. Aliás, você desapega do ato de precisar de alguém integralmente pra cuidar de você e aprende a fazer isso você mesma. E vê que gosta disso.

3 – Você desapega de questões partidárias e começa a enxergar o político em si. O que ele faz pra você? Pelo que ele luta? Você se sente bem “assistido” por ele? Ele/ela trabalham pelo “povo” ou por si?

4 – Você desapega da terceirização de serviços e faz coisas que anteriormente pagaria pra alguém fazer. Inclusive limpar a casa.

5 – Você desapega do “tudo na mão” e começa a fazer você mesmo. Seja marcar uma viagem, construir um roteiro novo, montar os móveis da sua casa.

6 – Você desapega do medo de não conseguir e se joga. Seja pra aprender uma nova lingua, se virar no metrô de uma cidade grande e cheia de linhas, fazer uma nova amizade em outro país, ler uma bula de remédio em alemão.

7 – Desapega de reclamar tanto e passa a agradecer mais.

8 – Desapega do “e se…”pra fazer verdadeiramente….

9 – Você desapega de ver a experiência alheia pra viver a sua

10 – Você também desapega da imagem pra viver a saudade, da roda de amigos no bar pelas mensagens de voz ao telefone, do colo da mãe e do pai para as sessões de skype, das muitas risadas pelas lágrimas, das lágrimas pelas muitas risadas.

11 –  Você desapega de você e cria um novo “eu”.

Sei lá gente, você desapega de tanta coisa quando se muda de país, que aos poucos vai se percebendo outra pessoa. Apesar de não ter sido fácil trabalhar esse tal desapego, aos poucos vou percebendo que de uma maneira ou de outra vou me sentindo em paz comigo mesma.

Óbvio que sinto falta de muita coisa, principalmente do que não é plástico. Mas tem sido essencial pra mim esse “deixar ir”, me livrar das amarras, das imagens e dos achismos. No fim, você aprende que desapegar é deixar ir embora apenas aquilo que não lhe é essencial, não é mesmo?

Da arte do desapego

Danke Gott!

*Não necessariamente para se trabalhar o desapego é preciso morar em outro país ok? Falo de mim, da minha posição, da minha experiência. Eu, que nos últimos 7 anos trabalhei excessivamente encima da imagem precisei me colocar fora pra me sentir dentro.  E está é a essência do Monalisa de Batom, acrescentar algo de bom na vida das pessoas, não apenas superficialmente, mas verdadeiramente bom.

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